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você se importa quando eu desmorono?

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • 3 de jul.
  • 3 min de leitura



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música: cigarette smoke - olivia rodrigo


este texto foi escrito às vésperas do ano novo de 2026 e editado ao longo do que aconteceu.


eu te entreguei todo o amor que eu poderia ter dado a mim mesmo. te coloquei em um pedestal e liguei o ♡foda-se♡ para a minha saúde mental enquanto te imaginava como aquele que não sairia do meu lado por nada nesse mundo. eu te vi me dando as mãos nos momentos mais difíceis e sorrindo comigo quando o mundo fosse colorido. aquele velho papo de casamento, sabe?


queria muito ter algum tipo de poder, mesmo fraco. eu não te culpo, mas não quero que você saia como o mocinho. sei lá, queria dar um jeito de machucar você. pagaria pra ver você sofrer. com as mãos na cabeça, gaguejando e pedindo pra deus levar embora a dor. um pedido qualquer, só pra enxergar como meu coração sangra cada vez que penso em você. cada vez que me sinto culpado por não ter suportado. espero que saiba que desligar o telefone como se eu não fosse nada dói demais, porque eu depositei em você tudo o que um dia pensei ser impossível. é isso que a gente investe numa relação?


você foi o ponto principal da minha vida e agora eu não sei muito bem para que lado ir. fico imaginando outro tomando o meu lugar, quando, na verdade, eu fui tudo o que eu tinha que ser pra você. eu dei tudo o que eu tinha que dar. e, a cada copo d’água de madrugada, eu traduzia a paixão mais bonita do mundo. foi de verdade, eu te juro. até que eu te vi desmoronando naquela quarta-feira enquanto a luz da tv iluminava teu rosto. eu realmente precisei desse espaço, você sabe disso. eu fui paciente. eu pedi e quis esse tempo, e nunca foi pra te punir.


tentei te incluir no meu mundo. tentei te fazer se sentir especial, elevar a sua autoestima, te mostrar o quanto você era único. pena que nunca consegui te fazer enxergar como você era especial. e agora eu sei que tudo em volta é só fingimento. não existe mais o barulho do trem de madrugada nem o recibo da viagem em setembro do ano passado. te segurei tanto nessa relação, não porque eu te amava, mas porque eu achava injusto demais ser o último machucado.

certa vez, cê me disse que ficava arrasado quando eu ia dormir sem falar com você. hoje, sou eu quem me sinto assim: arrasado, detonado, sem um ombro pra chorar quando a saudade aperta de madrugada. sua foto sumiu e me transformei no seu pior inimigo. como dividimos a mesma cama por todo esse tempo e hoje nos julgamos como dois desconhecidos? um mísero abraço que nunca mais foi dado. sério mesmo que fica triste e se importa quando me vê chorar? semana passada você me disse como a vida estava difícil e, naquela mesma noite, eu telefonei pra te acalmar.


eu te busco mais uma vez no metrô e ainda vejo você descendo a escada rolante pela última vez. e você diz que me trata bem, mas nunca mais te vi um dia sem eu terminar chorando. sem te ver com a mochila nas costas, apertando o botão do térreo, como foi naquele dia primeiro de abril. não sei quando foi a última vez que te entreguei a escova amarela enquanto você tomava banho. quando foi a última vez que eu preparei e levei café na cama. tenho que fingir que nada mais me abala, mesmo sabendo que eu nunca mais vou voltar a ser o mesmo. almoçando pelos cantos na cozinha do trabalho, evitando falar sobre você porque todo mundo já tá cansado.

e os dias são amargos. passa das onze e meu coração pede descanso. me incluí numa dor que nem o sono alivia, porque ainda busco respostas e não há descanso. minha mãe me pergunta sobre você, às vezes. não porque sente saudade de nos ver juntos, mas porque ela sabe o quanto você me fez falta. ela me viu sentado no chão do banheiro em janeiro.


eu ainda estou aqui como seu colega, seu amigo, mas eu não aguento mais tanto sofrimento. como pude entrar nesse limbo, andando em círculos, enquanto você parece nem aí? tentando me entreter e passar o meu próprio tempo, fazendo a barba errado, bebendo com desconhecidos e pedindo desculpas a mim mesmo no espelho enquanto vejo minhas olheiras cada vez maiores. imaginando você rindo de mim em uma mesa de bar. no fim, recebi um “oi, tudo bem, relaxa”. quem eu fui? eu signifiquei alguma coisa para você? você estaria ali por mim de novo ou posso considerar que tudo foi uma mentira? desaprendi a ter algo bom aqui dentro, porque tudo o que me rodeia é dor. e foi você quem a desenhou.

 
 
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