menino
- Gabriel
- 4 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

música: youth - troye sivan
perdoem-me, amigos, eu sei o quanto falo sobre essa tal famosa-crise-dificílima-dos-trinta-anos. e olha, confesso que também tenho me sentido bem, apesar desse turbilhão de pensamentos. são dias e dias. e isso não faz parte de nenhum diagnóstico. ninguém nunca me pressionou nem me pediu pra crescer. eu fiz isso porque não tinha pra onde fugir. quando aquele relógio virou, senti tanta vontade de me tornar protagonista, mesmo que às vezes ser coadjuvante seja mais confortável. é como se o tempo dormisse e acordasse comigo, me lembrando daquele papinho sobre ser jovem demais pra me sentir velho e velho demais pra me sentir jovem. clichêzão, eu sei.
ninguém nunca me contou sobre a parte difícil. é que, lá pelos meus vinte e poucos, já comecei a sentir um baque sozinho. talvez eu já tenha visto, quando mais novo, alguma coisa sobre esse tipo de argumento. mas eu acho que é o momento: é agora ou nunca. há alguns anos eu sentia que podia errar. eu ainda posso. mas posso? é como se todo o antes tivesse sido um ensaio. agora é o momento de colocar tudo o que aprendi em prática. é o 'pra valer'. ganhe um aumento, seja o melhor, escreva perfeitamente e nunca fique em segundo lugar. busque a perfeição.
já comprei todas as roupas que tinha vontade de comprar. visitei alguns lugares legais. voltei para minha cidade natal e chorei escondido dentro do carro enquanto o som abafava qualquer sentimento. mas foi um choro bom, te prometo. quando retorno pra lá, passo em frente à escola e me sinto conectado com uma versão antiga que, provavelmente, teria orgulho de me ver assim. ela (essa versão) não tinha tanto medo das chances desaparecerem porque ainda faltava tanto tempo. e esse tempo chegou. ele está acontecendo. toda a nostalgia é real. é que sou bom em reconhecer quando aquilo vai dar saudade. tipo quando o globo de cristal no meu aniversário girava ao som de the neighbourhood.
tem vez que me sinto tão sortudo olhando pela janela. quanto sentimento bom cabe dentro de um quarteirão? olha só onde eu estou. no lugar que estou. mas, às vezes, estou tão atrasado. pra pegar o ônibus de volta e me sentir livre. coloco tudo no papel, mas esqueço logo em seguida. não sei se vou ser melhor um dia. não quero, também, me sentir estagnado. é uma mistura: bom e mediano dentro de um copo de cosmopolitan. sou o melhor amigo da versão mais antiga? preciso estar agora. aqui. em uma sala cheia de gente.
o que tenho sentido, de verdade, é como cada segundo conta. não é sobre ter fomo, é sobre ter fome de vida. sobre querer aproveitar o que ela tem de bom, sabe? dia desses, voltando pra casa no ônibus que me deixa pertinho, vi um cara com um estilo bem retrô, tipo anos 70. ele estava sentado, meio agachado no chão do ônibus, com o cabelo comprido, ouvindo música num celular bem antigo. tocava um rock leve, gostoso de ouvir. não incomodava ninguém. e isso é tão raro. ao mesmo tempo em que não quero parecer aquele tipo de pessoa que fala “nossa, eu vejo beleza nas pequenas coisas”, eu quero. porque as coisas são assim, acontecem do nada.
como posso ser um homem de trinta anos se escrevo esse texto de samba canção e blusa do mickey? às vezes tenho a sensação de que o tempo dentro da minha cabeça simplesmente parou. dia desses, antes mesmo de entrar na paulista, percebi isso ao olhar uma obra em frente ao bar amarelo onde passei o carnaval de 2023. dei um sorriso solitário, pensando em como alguém que, segundos antes, refletia sobre envelhecer, agora se via imerso numa cena quase infantil. tipo aquela em que a julie, de a pior pessoa do mundo, faz uma alusão à bambi. acho que foi porque todas aquelas peças e máquinas me lembraram um parque de diversões. girando, subindo, descendo, virando de um lado pro outro. sem sentimentos, só pensamentos.
é complicado, mas é bom. é sobre aproveitar tudo o que ainda pode ser o melhor. eu levo fogo pra dentro de mim e encho as taças de vinho. os leões me devoram todos os dias, me deixando em pedaços. é melhor eu me desenterrar e ser o melhor agora.
ainda tenho muito pra viver e não posso fingir que não. haverá dias, mundos e lugares pra conhecer. desobedecer regras não é só coisa de gente jovem, é coisa de quem ainda quer ser. e eu ainda quero. escrever talvez me leve pra algum lugar que eu ainda não conheço. eu sei que sou drama queen, mas quero ser o rei e desbravar tudo o que ainda dá, porque ainda tenho vontade.
crescer é estranho, mas é bonito. o tempo passa, e mesmo quando parece que ele parou dentro da cabeça, ele continua acontecendo. e isso é motivo pra viver, escrever e se reinventar.
foto: pinterest.



















