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voltei pra 2015 e não tinha ninguém lá.

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • 2 de set. de 2024
  • 3 min de leitura




música: runaway (u & i)


desci a rua da kenty sem olhar pra trás. já era de manhã e o sol brilhava em meio às janelas das casas do bairro. eu tentei ligar para o meu pai, mas ele não me atendeu. no som do carro estacionado no sinal tocava 'runaway (u & i)'. eu consegui enxergar estranhos acenando pra mim naquele posto de gasolina e busquei alguma forma de achar o caminho de casa. reconheci meu coração condenado ao amor pela primeira vez junto ao concreto da rodovia. ele sorria de volta toda vez que eu cruzava meu olhar. era tarde, mas as luzes já estavam sendo ligadas. desde o primeiro gole de bebida naquele julho, paralisei e pude me encontrar encostado na parede daquele galpão abandonado. de novo. de novo. e de novo. a música ainda tocava. ariana grande no último volume e as luzes indo pra lá e pra cá. ninguém na fila do banheiro.


naquele habib's perto da festa não tinha mais ninguém. mas dava pra ouvir as risadas dos meus amigos ecoando naquele lugar escuro. foi como voltar para o passado e não encontrar ninguém ali. esperar meu pai na esquina com medo dele saber a festa que eu estava. eu era o mesmo, mas já não era mais o mesmo. dá pra entender? eu desci do carro branco e fui para o portão dos fundos. toquei a campainha de casa, mas ninguém me recepcionou. as coisas do teddy estavam ali: portão perto da piscina, casinha embaixo do armário da varanda e potes de comida ao lado da geladeira. o cheiro dos perfumes no guarda-roupa. o computador de mesa e os jogos espalhados pela bancada branca.


choveu. choveu bastante. era setembro. o clima do suéter: no som, na vida e no meu coração. ainda fazia bastante calor e no cenário o carro estacionado na esquina em frente ao terreno baldio e o carrinho de cachorro quente ligado. ninguém ali dentro, só a fumaça que saia. depois da chuva, noite estrelada. bala de hortelã jogada no banco do carona e cheiro de amor. camiseta suja de bebida vermelha. idas e vindas na cidade vizinha. luzes amarelas e a estrada vazia. só eu e mais ninguém. engraçado foi me ver acenando para o futuro, como se eu soubesse que aquilo ali ficaria guardado como uma memória boa.


no meio do mês, isadora e pedro estavam no banco de trás comigo. eu tentei falar alguma coisa, mas só ouvia as gargalhadas de alguma piada besta. no fundo do shopping tinha um alguém cheio de esperança. o pôr do sol nos contava algum tipo de história que me fazia acreditar. e as cervejas no balcão daquela festa ainda estavam lá. percorrendo pelo maracanã com o céu laranja pintado em tons saturados sem pensar na volta pra casa. os passarinhos já queriam acordar, mas a gente insistia pra que a noite durasse mais tempo. éramos tão jovens que as consequências não eram reais. sentimentos em intensidade no mesmo ritmo da música do rádio. medo da descoberta e noites azuis.


sem que eu percebesse, o meu eu passou por mim algumas vezes. correndo, desejando que aquelas sensações fossem eternas. que o amor tivesse gosto doce. consegui voar pelas casas do damha e descer as ruas escuras, com as luzes piscando e brilhando sobre meu rosto. atrás daquela faculdade e na praça do vivendas, eu me vi com uma garrafa de vidro e a bebida azul de novo. era o mesmo lugar, mas não tinha mais ninguém. os brinquedos ainda estavam conservados.


derrubei algumas lágrimas quando nos vi naquele quintal. as cachorinhas correndo e a bebida gelando. os colchões estavam intactos na sala de estar. o telefone fixo ainda funcionava, só que não pude ouvir nenhuma voz. naquele recinto, alguma música tocava no fundo. como se fosse o começo de tudo. um começo de alguma história. como parte de um cenário irreal, mas insistentemente real, fantasias de halloween. outubro com o desespero que vinha junto. férias e amigos reunidos na varanda. em algum lugar no mundo, era 2015 de novo. e eu pude sentir as coisas pela primeira vez mais uma vez. da forma que as coisas aconteceram comigo, pude me sentir vivo. luzes, as pessoas e aquele lago. as fugas na madrugada. sonhos que se tornaram realidade.


o meu eu de 2015 sempre foi feliz. e ele segue aqui. que prazer poder encontrá-lo por lá, mesmo com as coisas diferentes. não tinha ninguém por lá.


foto: pinterest.


 
 
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