homem crescido.
- Gabriel
- 20 de out. de 2024
- 3 min de leitura

música: todo homem - zeca veloso (part. moreno e caetano veloso)
vestido de branco e short preto, cinco anos de idade, por volta dos anos dois mil. de pernas cruzadas e de frente pro espelho, a filmadora do meu pai me flagrava passando aquele perfume caro no pescoço e sorrindo pro reflexo. passeando por sonhos que eu nunca soube formar de verdade em mim, mas que naquela época eram reais.
— o que você tá fazendo, filho?
— passando perfume.
será que a expectativa dele já era grande naquela época? minha personalidade ainda dava pra ser moldada e as coisas pareciam ser mais fáceis. o sol queimava mais rápido e a minha voz era mais doce. mãe, você se lembra de como era difícil me fazer tomar remédio? eu era só um cara que ainda ia crescer e meu trajeto já estava traçado. mas acho que você ainda tinha esperança. afinal, naquele prédio bege e vinho, o mundo ainda nos unia, de certa forma. e hoje nós ainda somos próximos. talvez, temos muita sorte.
passei alguns bons anos escorregando naquele tobogã na entrada do clube. caminhando naquele piso branco da empresa onde você trabalhava. eu telefonava e digitava algumas coisas no computador de tubo. será que eu era tipo um herói pra você? um sorriso em formato de coração. um pirata nas águas termais frente a frente com uma sereia.
eu te telefonava no intervalo da escola só pra ter a certeza que você estava bem. meus amigos até me esperavam, mas nem sempre tinham paciência. sabe, te ligar todo dia 9h da manhã? e a manhã naquele tempo era o começo. eu te fazia sorrir mais do que hoje?
tentei por muito tempo ser perfeito. te fazer sorrir. mas, acho que hoje estou um pouco quebrado, embora seja mais feliz. as janelas do meu quarto ainda ficam fechadas. eu tenho que enfrentar alguns monstros sozinhos, mas adoro quando você me dá a mão. te fazer chorar algum dia nunca esteve nos meus planos. sentada naquele sofá que queimei porque nunca soube passar uma roupa. essas lágrimas precisam secar.
o sal daquela praia e nossas risadas em meio aos carros estacionados no campo. o campo de futebol e minha personalidade gritando pra você. pai, as coisas podem ser mais fáceis. porque eu sou eu. tenho falado disso na terapia. e nossa relação melhorou bastante, você também sente isso?
seu cabelo se parece com o meu. nossos jeitos também são próximos. só quero que você ainda tenha orgulho de mim se em algum momento eu falhar. só que eu não posso correr atrás de um futuro que não é meu. de um olhar que não é meu. de uma aprovação que não é minha.
me afogar dentro de um banheiro limpo não pode ser o meu roteiro. não faz mais parte do meu personagem. chorar no banco de atrás da sua camionete depois de ter enfrentado todos aqueles parentes. encher a cara só pra aguentar um churrasco no domingo. não estou doente. estamos expostos e todos os nossos erros nunca foram ditos naquela igreja. você acha que isso é pecado?
eu só tenho 29 anos, pai. eu ainda sou uma criança. mas, eu posso ser um homem crescido, dependendo do seu ponto de vista. acho que as minhas imperfeições me tornam o que as pessoas chamam de único. só que eu tenho um caminho longo pra percorrer e não posso ficar preso em expectativas que não foram criadas por mim. de certa forma, eu ainda sou o mesmo.
é bom percorrer o meu próprio caminho. eu sei que vocês torcem por mim.
foto: aftersun (2022).



















