piña colada: um novo conto da infância sobre crescer
- Gabriel
- 2 de jan. de 2024
- 3 min de leitura

Música: Brutal - Olivia Rodrigo
Aos 16 ou 17 anos, a sensação é de que conhecemos tudo sobre a vida. Próximo aos 18, percebemos que mal vivemos o que deveríamos. Shorts desgastados e camisetas ao contrário. Uma estranheza incorporada ao próprio corpo. Pensamentos que percorrem estações. As pessoas te ditam o que fazer. Qual caminho seguir? Ah, preciso decidir agora?
"Tire boas notas e seja um bom menino!"
Me odeio? Me amo? Estou desapontando meus pais? Sério? ☹
Foi na Bahia, em 2013, que descobri meu amor por piña colada. Em um resort em Salvador, viajando com meus pais, perdi a conta de quantas vezes fui ao bar saborear o drink – rum, leite de coco e abacaxi –, obviamente, sem álcool (permitido naquela idade). Naquela época, os mais velhos me tratavam bem e admiravam a juventude. Meus inimigos se resumiam a um professor de matemática antipático e uma lagarta verde que queimou meu pé. Descobri o nome: lagarta-de-fogo. Fui levado à enfermaria de bug, e aquele salva-vidas se tornou um dos meus primeiros heróis. As madrugadas não eram perigosas.
No sereno e aos cantos dos grilos, era tão reconfortante passear pela piscina naquela calma da madrugada. O vento brincava com todos os guarda-sóis. Imagine entrar na água na calada da noite sem olhares julgadores? Céu azul entre as pessoas. Manhã quente. Praia particular e sonhos que transbordavam da cabeça. Nada era permanente, mas parecia ser. Casais de mãos dadas que, às vezes, apenas se suportam. Por que crescer? Era necessário deixar aquele paraíso?
Enquanto meu pai jogava tênis, minha mãe tomava sol. Eu caminhava sem rumo. Podemos pular para o final? Esta é a melhor fase da vida? Com certeza? Jantar francês. Almoço japonês. Brunch. Coca-cola liberada no café da manhã.
Dentro daquele hotel, tudo parecia possível. Mas não o suficiente para me construir. Ainda gostava de meninas e que péssimo gosto. Não era inteligente. Não era bonito. Não era o melhor da sala. Minha namorada terminou comigo. Alguém pode me ajudar? =)
Não fazia questão de dar o meu melhor. Será que não sou bom o suficiente? Me resumia a um braço que estava crescendo os pelos? Os meninos da minha idade já tinham barba. Eu não. Como é estranho sentir-se estranho dentro de um mundo tão estranho. Como é cruel lidar com tudo.
Em julho de 2013, eu descia diretamente para o bar quando o dia começava. Uma, duas, três. Sei lá quantas piñas coladas. Dava pra mentir a idade, às vezes. O sol queimava. Parecia que meu prazer estava ali. E quando tudo acabar? E quando entrar naquele avião de volta? Todas as possibilidades vão embora?
As pessoas pareciam apenas me tolerar. Eu estava quebrado, só não sabia. Ninguém me olhava, mas era notado. Eu tinha um cabelo muito liso. Era magro. Meus pais queriam tirar fotos comigo. Eu mesmo me manipulava. Quem são essas pessoas com dinheiro ao meu redor? Eu vou me tornar uma delas um dia?
Dez anos depois, ainda gosto de piña colada, mas não amo. As coisas mudaram agora e sabe aquela vontade/curiosidade de crescer? Pois bem, confesso que estou meio em dúvida se foi bom avançar. Será que era melhor ter ficado por lá? Aliás, meus problemas eram muito menores dos que enfrento agora. Bom, eu tenho a nostalgia para relembrar como era tudo aquilo. E uns drinks também podem me acompanhar.
Foto: Princess Tiana - Disney (Pinterest).



















